Sem fiscalização, lubrificante canábico pode ser perigoso para a saúde íntima

Sem fiscalização, lubrificante canábico pode ser perigoso para a saúde íntima

Saúde ,

Diga lá se não é divertido e engraçado conversar com outras pessoas sobre produtos eróticos “diferentões” que você encontra por aí. Atualmente, o mercado sexual oferece uma gama de lubrificantes e óleos para a região intima com ingredientes variados, naturais e até proibidos – como é o caso do lubrificante de maconha.

Este último, por sinal, é o mais polêmico entre todas as opções citadas. Já que a comercialização e o cultivo da cannabis são proibidos no Brasil (seu uso médico é liberado em algumas circunstâncias), as marcas não podem produzir nada que contenha o ativo da planta, muito menos um produto erótico.

Isso não significa que, se você procurar, não vai achar o lubrificante disponível para venda. De maneira caseira, alguns pequenos produtores fabricam óleos íntimos canábicos, basta dar uma pesquisada no Instagram para encontrar algumas opções.

A falta de fiscalização e controle de higiene na produção destes óleos, porém, podem afetar a saúde intima da mulher e acarretar em infecções, doenças e no desequilíbrio da flora vaginal, como relata Maria* (nome fictício), seguidora da Vibre, Mulher! que teve problemas depois de fazer uso de um lubrificante canábico caseiro.

“Foi o melhor orgasmo da minha vida, mas os efeitos colaterais foram terríveis”

Óleo de CBD

Lubrificante de maconha: sem fiscalização, ele pode ser maléfico. Imagem: Getty Images.

“Estava em uma fase de experimentações. Tinha começado a me masturbar de outras formas e a usar vibradores. Achei um perfil no Instagram que vendia o lubrificante de maconha. A página tinha um discurso de liberação sobre o uso da cannabis (com o qual eu concordo totalmente) e também sobre o aumento que a planta provocava nos orgasmos. Não pensei duas vezes e comprei o produto.

Junto com o óleo, veio um material explicando como usava o produto, que era pra passar no ponto G e na parte externa do clitóris 20 minutos antes do sexo ou da masturbação… assim eu fiz. Tive um orgasmo incrível, inexplicável, múltiplo. Foi muito intenso, nunca senti nada igual. Então fiquei maravilhada, claro.

“Tive um orgasmo incrível, inexplicável, múltiplo. Foi muito intenso, nunca senti nada igual. Então fiquei maravilhada, claro”

Alguns dias depois, porém, comecei a ter um corrimento estranho com um cheirinho péssimo. Logo descobri que era vaginose. Fiz tratamento com pomada e comprimido e nunca mais usei o óleo, até joguei fora.

Na época não parei para refletir sobre a fabricação do mesmo, os riscos e tudo mais. Hoje em dia, depois que adquiri mais conhecimento sobre sexualidade feminina, não uso o produto e não recomendo… não dá pra saber nada sobre a produção, controle de ambiente, embalagem.. a ideia é ótima, mas infelizmente não dá para confiar.

A vagina tem uma flora específica, não dá pra usar qualquer substância ali”.

Depoimento Maria* (nome fictício), 27 anos, antropóloga e cliente da Vibre, Mulher!

Consulte seu médico

Aqui no Brasil, a produção de lubrificantes íntimos passa por um rígido controle da Anvisa. O órgão regulatório fiscaliza desde os ingredientes utilizados na composição dos óleos, a quantia e proporção de cada um dos componentes, além da higiene do local e do manuseio dos mesmos.

A médica ginecologista Mariana Rosário alerta sobre os riscos do uso de produtos íntimos produzidos sem a fiscalização apropriada. “O primeiro risco é a infecção, pois não sabemos se os produtos passam por todas as etapas de cuidados, se o manuseio é feito de maneira correta, se é higiênico. Além disso, não existe um controle sobre as doses desses óleos. Precisamos lembrar que tudo que é aplicado na região da vagina e da vulva é absorvido via corrente sanguínea”, explica Mariana, “A cannabis pode ser absorvida e você pode ter um efeito sistêmico. Precisa ter cuidado com a dose. Se a pessoa não está acostumada com o uso do ativo, o produto se torna perigoso”.

“A cannabis pode ser absorvida e você pode ter um efeito sistêmico. Precisa ter cuidado com a dose”

Algumas mulheres estão mais propensas a enfrentarem os efeitos negativos do produto, como explica a especialista: “As mulheres que possuem uma microbiota vaginal totalmente atrapalhada, as que apresentam corrimento, infecção urinária de repetição, a que já teve alguma IST (Infecção sexualmente transmissível) ou que tem alguma doença que altera a imunidade local, como por exemplo o HIV, gonorreia, clamídia, estão mais suscetíveis à infecção e, com a aplicação do produto, ela pode potencializar as chances de ter uma complicação de origem bacteriana ou fúngica”.

Mariana ressalta também que não existe uma regra especifica sobre o uso dos óleos, o que importa é que você consulte o seu médico para fazer uma avaliação antes de experimentar qualquer produto íntimo. “É interessante avaliar produto a produto. Leve os lubrificantes para o seu médico, peça uma análise sobre a dose do ingrediente, não decida sozinha. Converse sempre com seu ginecologista”, conclui.

O Brasil não nos deixa gozar?

Uma coisa, porém, é importante de reconhecer: os lubrificantes canábicos são excelentes estimuladores sexuais para a mulher. Tanto é que a marca brasileira de produtos eróticos Intt comercializa estes lubs – de forma legalizada – na Europa, em países onde a venda de cosméticos à base de CBD é liberada (a linha, inclusive, se chama Intt Ganjah).

Larissa Uchida é empresária, economista e pós-graduanda em cannabis medicinal. É também distribuidora exclusiva da Intt Cosméticos e explica que já existe um projeto de lei circulando na Câmara dos Deputados (PL 399/2015) para viabilizar a comercialização de produtos com o extrato, o substrato e outras partes da planta em sua fórmula. Prever quando a PL será aprovada, porém, é difícil, pois o projeto ainda precisa passar pelo Senado e pelo Presidente da República.

“Acredito que os produtos a base de cannabis sejam extremamente benéficos para os brasileiros. O óleo da semente de cânhamo — que é muito utilizado pelas indústrias de cosméticos — possui propriedades hidratantes, calmantes, antioxidantes e anti-inflamatórias. É importante que a lei mude, pois teríamos a oportunidade de usar produtos que trazem benefícios para a saúde sexual das pessoas. Existem diversos cosméticos canábicos que podem intensificar o orgasmo, melhorar o ressecamento vaginal e diminuir dores na relação sexual”, ressalta Larissa.

“É importante que a lei mude, pois teríamos a oportunidade de usar produtos que trazem benefícios para a saúde sexual das pessoas”

Com um governo conservador na presidência do país, contudo, é quase impossível que a PL 399 avance. Enquanto os lubrificantes especiais (e espaciais) não são liberados no Brasil, a Vibre, Mulher! oferece uma lista de outras opções confiáveis e deliciosas. Confira!

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