Squirting: tudo o que você queria saber sobre a ejaculação feminina

O Squirting começa assim, primeiro você está com tesão, começa a estimular a genitália e de repente o complexo clitoriano dobra de tamanho. Alguns segundos depois a vagina fica molhada e até se alarga um pouquinho. Quanto mais perto do clímax você chega, mais aumenta o batimento cardíaco, a respiração acelera e a pressão arterial sobe. Os músculos do resto do corpo se contraem e os dedos das mãos e dos pés chegam a se encolher de tanto prazer. Isso tem um nome chique: espasmos carpopedais como define Nina Brochmann e Ellen Stokken Dahl no livro Viva a Vagina.

Por fim, chega uma sensação de bem-estar que se espalha dos pés à cabeça, e ela pode vir ou não acompanhada de um esguicho ou fluído da vagina. Esse líquido transparente e pastoso é considerado a ejaculação feminina, que muitas mulheres desconhecem, chamado: Squirting.

O Squirting pode se dar antes, durante, depois ou até mesmo sem o orgasmo, e divide opiniões entre as especialistas. Por isso, conversamos com algumas delas para entender e te explicar o que é, como é, qual a sensação, a diferença com o orgasmo e a lubrificação, como dominar esta potência e relatos reais de mulheres que já atingiram a ejaculação feminina, enfim, tudo o que você precisa saber!

Mas vale ressaltar antes de mais nada, é que é realmente um esguicho que molha um pouco a cama e não um jato enorme como é mostrado nos filmes pornôs. Enquanto a próstata do homem é capaz de liberar cerca de 5ml de fluido na ejaculação, a mulher acumula de 1 a 2ml no máximo (como mostra a imagem abaixo).

 

Squirting Ejaculação Feminina

Afinal, o que é squirting? 

Squirting, vem do inglês “Squirt”, que significa “Esguicho”. Sue Nhamandu é filósofa e ministra aulas e eventos voltados para a educação sexual de mulheres, ela nos explica que se trata de um líquido composto de antígeno prostático (PSA), água e algumas outras substâncias que não são descritas com bastante clareza nos artigos médicos.

Esse líquido expelido pelas glândulas parauretrais, conhecidas também como Gräfenberg, Ponto G ou Glândulas de Skene, ajudam na lubrificação sexual. Ela fica situada na entrada do canal vaginal, bem próximo à uretra. O órgão tem o tamanho de uma ervilha, ao ser tocado provoca bastante prazer e é responsável pelo squirting, que é basicamente a ejaculação feminina, já que as glândulas parauretrais equivalem a uma próstata.

A professora descreve que a sensação do squirting se assemelha ao xixi, pois passa pelo canal da uretra, todavia não é xixi. A cor da ejaculação feminina é transparente, esbranquiçada, tem uma textura levemente viscosa (menos que a lubrificação vaginal) e o sabor é próximo do amargor.

Uma das pesquisas realizada em 2013, conclui que a expulsão dos fluídos corporais durante o squirting não fazem parte do orgasmo feminino, e que pode acontecer entre 10% a 54% das mulheres.

O squirting nada mais é do que um relaxamento, e ele pode ou não, ser acompanhado do orgasmo. Pode vir antes ou depois de um orgasmo, mas não é a mesma coisa que o orgasmo. Quando ele acontece com o orgasmo, ele é um facilitador de orgasmos múltiplos e traz uma sensação de relaxamento mais ampla.

Sue especifica que o squirting pode acontecer inclusive sem o orgasmo através da massagem que é a ordenha de próstata. “O interessante da massagem é que você renova o líquido que se acumula durante o processo de excitação, que é responsável pelo inchaço da região genital, esse líquido se renova, saí mais fácil e as chances de você desenvolver alguma forma de inflamação são reduzidas”.

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Foto: Coletivo Amapoa

Diferença entre squirting, orgasmo e lubrificação

O squirting, como foi explicado, é caracterizado por um líquido esguichado pela vagina por uma glândula que está vinculada com a nossa sexualidade e que costuma ser acumulado durante o processo de estimulação erótica. Ela tem uma função de limpeza e de resfriamento, como se desse uma resfriada no motor.

Enquanto o orgasmo é uma reação psicofisiológica aonde uma série de neurotransmissores, feromônios e hormônios são exalados, elevando assim a ocitocina no corpo. É considerado o pico do prazer e não tem relação com o squirting. Esse acúmulo de energia favorece a explosão provocada pelas terminações nervosas que temos no corpo todo, na pele, nos seios, na axila, na virilha, na região genital, no ânus, nos pés, nos entre dedos, enfim o corpo todo é orgástico.

Então podemos dizer que o orgasmo é uma liberação repentina involuntária de tensão sexual e o alívio dessa liberação tem a função de organizar o nosso fluxo energético e nos trazer a sensação de potência. Esse empoderamento que o orgasmo traz é ótimo para autoestima, cognição, sistema imunológico, redução de dores e criação de laços, que é muito importante já que o ser humano é um ser social.

Sue explica que a mulher que ejacula não tem um orgasmo plus, melhor do que os outros orgasmos, ela tem um orgasmo diferente. O que acontece é que quem tem um orgasmo clitoriano muito intenso, logo em seguida sente uma sensação de choque ao toque, então uma pausa é necessária. Quando o orgasmo vem acompanhado de uma ejaculação, ou uma ejaculação logo em seguida, o corpo se sente pronto pra ser estimulado novamente, e ser estimulada de novo já com o pico de energia elevado faz com que a mulher consiga engatar orgasmos múltiplos com muito mais facilidade.

O orgasmo múltiplo não é melhor, ele é diferente em níveis de intensidade, ou seja, os picos do orgasmo múltiplo são menores do que um único mais intenso. Coisa que os homens não conseguem!

Já a lubrificação da vagina é proveniente do colo do útero, da secreção da parede vaginal ou da produção das glândulas de Bartholin, e não necessariamente proporciona prazer, ela é na verdade uma consequência da excitação. Esse muco deixa o canal mais lubrificado, facilitando o orgasmo e o squirting.

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Foto: Coletivo Amapoa

Curiosidades sobre o Squirting

Na indústria pornográfica o squirting é muito comum, mas não como mostram os filmes pornô, com grandes jatos de líquidos corporais. A sexóloga e psicóloga Claudia Renzi explica que muitas vezes aquele fenômeno que mostra uma enorme quantidade de fluídos é forjada. Ela diz que para mulheres comuns no dia a dia é mais fácil chegar facilmente neste estado com a massagem tântrica, por haver um estímulo maior na região.

O mesmo pode acontecer em experiências BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), em que a estimulação é continuada após o orgasmo, então é muito comum a mulher ejacular nestes casos.

Squirting pelo mundo

Desde a antiguidade há relatos sobre a ejaculação feminina. O Kamasutra (escrito entre 200-400 DC) fala de “sémen feminino” que “cai continuamente”, enquanto um texto taoista do século IV, “Instruções Secretas sobre a Câmara de Jade”, distingue entre “vagina escorregadia” e “os genitais que transmitem fluido”. Korda e seus coautores concluíram que o último pode ser claramente interpretado como ejaculação feminina.

Em Ruanda, na África, o orgasmo feminino é tão sagrado que virou tema do documentário francês: “Secred Water (“Água Sagrada”, em tradução livre), dirigido por Oliver Jourdain. Lá existe uma crença popular de que a mulher deve ejacular, e os homens se sentem responsáveis por essa questão. Isso nos faz refletir sobre as diversas pesquisas já realizadas que constatam que as mulheres brasileiras que estão em relações heterossexuais são as que menos gozam.

 

Confira a última pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Data Vibre, Mulher! sobre orgasmo com penetração 

 

De acordo com o maior site pornô do mundo, Pornhub, a popularidade dos vídeos de “squirting” aumentou drasticamente entre 2013 e 2015, permanecendo entre as 20 categorias principais do website. O curioso é que 44% das pessoas que buscam por essa categoria são mulheres, por isso, queremos desmistificar essa potência feminina ainda tão desconhecida.

Mas há controvérsias, pois a ejaculação feminina foi motivo de protestos e banida da pornografia produzida no Reino Unido em 2014. Quer dizer, aparentemente a ejaculação masculina é aceitável, enquanto a mulher sentir prazer ainda é considerado um ato obsceno.

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Foto: Coletivo Amapoa

Como dominar a arte do squirting?

Algumas mulheres na tentativa de agradar o parceiro, que tem como referência os filmes pornôs, se cobram muito por não alcançarem aquela ejaculação de chafariz apresentada, mas vale lembrar que muitas vezes aquilo não passa de um espetáculo fake encenado.

Diante disso, a recomendação da sexóloga e psicóloga Claudia Renzi é o autoconhecimento. Primeiro se pergunte: você quer alcançar o squirting para sentir um prazer diferente ou pra mostrar para os outros?

Há mulheres que sentem a experiência intensamente prazerosa, assim como outras acham extremamente embaraçoso lidar com o squirting e algumas que se sentem diminuídas por não chegarem nele. Quem se sente constrangida é porque ainda não entende e aceita o próprio prazer, pois os líquidos fazem parte do nosso corpo. Já existem muitos mitos sexuais para nos diminuírem, não precisamos de mais um.

“A ejaculação feminina não é nada pra se ter vergonha ou algo que você seja obrigada a atingir, é só mais uma variação incrível do que o corpo feminino é capaz.”, descreve a autora Laurie Mintz, no livro Becoming Cliterate: Why Orgasm Equality Matters – And How to Get it.

A mulher também pode se estimular para conhecer o órgão, este é o caso da Sue que ejaculou uma vez sem querer e, a partir disso, decidiu pesquisar e estimular sua próstata até dominar a arte do squirting praticando diariamente.

“Pode acontecer e pode não acontecer, quanto mais a gente pratica atividades que estimulem o órgão, mais ele acontece e aí é interessante se você tem muito squirting comprar uma capa de colchão, porque se não ele vai mofar. Como pode ser que você seja uma super ejaculadora nata, tenha se hidratado mal aquele dia, esteja transando com uma pessoa que não é perfeita para sua afetividade, ou está estressada e não vai rolar.”, relata Sue.

A fisioterapeuta pélvica Jéssica Gomes, fala que não deveríamos nos preocupar com isso, já que a mulher não foi feita para ejacular. “A nossa anatomia não é igual a do homem que precisa da liberação de fluídos e o jato para fecundar. A maioria busca isso como forma de performance ou para impressionar o parceiro. Algumas chegam até a forçar essa saída e acabam liberando urina achando que é ejaculação. É uma cobrança sem função nenhuma”.

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Foto: Coletivo Amapoa

Relatos de mulheres que experimentaram o squirting

“A primeira vez eu fiquei confusa, me lembro que cheirei e fiquei naquela dúvida se era xixi, e vi cheguei a conclusão que não. Só depois que tive certeza que não era xixi, relaxei e deixei acontecer todas as vezes. É uma sensação de orgasmo intenso.

Conversei com meu parceiro pra saber qual era a sensação de gozar e percebemos que é parecido para os dois. É como se desse pra sentir uma pressão se acumulando e no momento que o líquido saí alivia essa pressão e dá um relaxamento profundo. As pernas ficam literalmente bambas.

Eu vejo que o que me fez chegar lá foi um conjunto de coisas, me tocar, estar com um parceiro que me deixa a vontade e se empenha em sempre fazer melhor, e também uma cura mental e espiritual de tirar todas as dores que o patriarcado me causou, a desconstrução em relação ao meu corpo, o empoderamento, o amor próprio.

Independente de atingir o squirting as mulheres devem se tocar com frequência e nesse momento se dar muito amor, se sentir gostosas, fazer o exercício de se elogiar e dar amor a partes do corpo que não gostam tanto, eu faço muito isso com a minha barriga. Isso desenvolve uma espécie de tesão em si própria. E quanto ao prazer com o outro, tem que se relacionar até achar alguém que a coloque pra cima, que reforce a sua autoestima, que goste de te dar prazer. Se você está em uma relação em que o sexo não é bom ou que a pessoa não está aberta a aprender aí é beijinho tchau, tchau.”, conta Roberta Anjos, uma mineira empoderada cisgênero e bissexual. Ela tem um canal no YouTube que fala sobre tabus femininos com mesmo nome do perfil no instagram @uairobert.

 

“Uma vez eu estava me masturbando com um massageador e senti algo muito forte “chegando”, tão forte que eu levei um susto e parei. Só algumas horas depois que eu me dei conta do que podia ser, e resolvi tentar de novo.

Dai quando atingi o squirting eu já sabia o que era, tinha pesquisado sobre e uma amiga minha já havia comentado sobre a experiência dela com isso também, e então quando aconteceu molhei uma boa parte da cama!


Eu estava sozinha e o squirting aconteceu depois do orgasmo, uns 3 segundos depois, quase junto. Foi muito mais prazeroso que um orgasmo normal porque a sensação durou um pouco mais. Me senti maravilhosa. Era como se meu corpo fosse capaz de fazer uma mágica, o que pra mim realmente fez!”, conta Maria Eduarda, uma mulher cisgênero heterossexual.

Ela recomenda que independente de fazer deitada ou sentada, o importante é ficar em uma posição que dê para contrair a perna, o bumbum e apertar a pepeca ao mesmo tempo, fazendo o famoso pompoarismo. “Esse conjunto facilita muito”, conclui.

 

Deu pra notar que o squirting é completamente involuntário e pode ser fruto da penetração, da estimulação com os dedos, boca ou brinquedos eróticos. Uma mulher é diferente da outra, então deixa rolar e não se cobre por isso, simplesmente acontece!

 

Sobre as especialistas:

Sue Nhamandu é mestre em filosofia pela UFABC. Scholar bolsista Europhilosophie Erasmus Mundus. Vencedora do prêmio Select de arte e educação com o projeto Pornoklastia sobre sexualidades revolucionárias. Esquizoanalista e terapeuta sexual. A pornoklasta atende cursos práticos e teóricos voltados para sexualidade positiva em especial Lab de Squirting contra o patriarcado. Imersões e vivências para cuidado de si e de relacionamentos. Está com a agenda aberta para atendimentos on-line em esquizoanális. Contatos: (11) 99898-3156 / Pornoklastia.wordpress.

 

Claudia Renzi é psicóloga especialista em sexualidade e terapeuta bioenergética. Ela ajuda mulheres a se conectarem com o seu próprio prazer e com a sua essência, de forma leve e sem enrolação.

 

Jéssica Gomes é fisioterapeuta pélvica especialista em saúde da mulher e do homem pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, acupunturista e instrutora de pilates. Ela acredita que a sexualidade deve ser leve e sem tabus.