Como é o tratamento e a recuperação de uma mulher vítima de estupro

“Quando acontece um estupro, uma agressão, é como se a gente tivesse nossa casa invadida. O que temos de mais nosso foi violado. Como posso me abrir de novo depois que fui violada?”

Quem disse isso foi Maria Gabriela Aragão, psiquiatra especializada em sexualidade humana pela USP. Segundo a especialista, o que uma mulher tem de mais íntimo é a sexualidade. E isso não tem nada a ver com sexo. Na verdade, esta é a forma como nos relacionamos com nós mesmas e com os outros. O autoconhecimento é o responsável pela nossa interação com o mundo

Quando isso é tirado da gente, o que acontece?

Segundo o 13° Anuário de Segurança Pública, em 2018, 180 estupros aconteceram por dia no Brasil. Em 76% desses casos, o agressor tinha vínculo com a vítima (namorado, marido, pai, irmão, tio, vizinho, por exemplo). 53,8% das agredidas tinha até 13 anos.

A mulher que foi agredida pode ter várias reações. Ela pode entrar em depressão, ter síndrome do pânico e isolamento social. Pode ignorar ou denunciar. Pode não entender o que aconteceu ou esquecer o que aconteceu.

Esses últimos dois fatores são relevantes para um dado. Segundo o Anuário, apenas 7,5% dos casos são notificados à polícia.

O esquecimento pode acontecer em vários casos de trauma. Segundo Maria Gabriela, nosso cérebro nos proteger do que não conseguimos lidar e para continuar vivendo, ele bloqueia a experiência ruim.

Biologicamente falando, em momentos de luta ou fuga (extrema tensão), liberamos hormônios e neurotransmissores que afetam nossa memória.

Mas, e as mulheres que não entendem que o que acabou de acontecer com elas foi uma agressão?

Cultura do estupro

A cultura do estupro é tudo aquilo que está inserido na nossa sociedade, como discursos da família, da religião e até das novelas, músicas e propagandas, que legitimam, banalizam e justificam um estupro.

São aquelas famosas frases: “Quem mandou estar naquele lugar tão tarde”, “Saindo na rua assim tava pedindo”, “Com esse decote, queria mais o que”, “Mulher foi feita pra ficar em casa”. 

Esse discurso reforça que a vítima da agressão está errada, não quem a agrediu. Quando o filme de terror acaba, a mulher se sente culpada pelo que aconteceu e não procura meios de denunciar e se ajudar.

E infelizmente essa culpa ainda persegue a mulher de outras formas muito tempo.

De divino a profano

Além da depressão, ansiedade, culpa, distúrbios, como alimentar, e Transtorno do Estresse Pós-Traumático, a mulher precisa lidar com outros sentimentos que podem aparecer depois da agressão. 

  • Nojo 

Segundo a psicóloga e terapeuta bioenergética Cláudia Renzi, o nojo pode ter várias formas. Além da mulher se sentir dessa forma por terem violado seu corpo, algumas reações naturais e totalmente biológicas podem levar a mulher a achar que tem algo de muito errado com ela. 

Há relatos de mulheres que gozaram durante o estupro. Sim, pode parecer estranho, mas vamos tentar entender biologicamente.

Claudia nos explica que o corpo, mesmo sofrendo uma agressão sexual como essa, reconhece os estímulos e pode levar a mulher a ter um orgasmo. Esse tipo de reação é involuntária, não controlada. Porém, na cabeça de uma mulher recém agredida, a situação faz com que ela acredite que “gostou” daquilo, o que não é verdade.

O sexo envolvendo fetiches como BDSM, shibari e tsuri misturam sensações de dor e prazer que, segundo Renzi, estão próximos.

Para termos um orgasmo, precisamos carregar nosso corpo de estímulos, as famosas preliminares, para então chegar ou pico e começar a relaxar. Com a dor acontece da mesma forma. "Não é certo ou errado. O errado é quando quando fica ruim para a pessoa", explicou

O estupro é uma agressão, um crime, e acontece contra a vontade da vítima. Os fetiches são desejos que a pessoa quer.

Esse conflito de sensações podem gerar uma confusão tremenda na cabeça da mulher, podendo se agravar, caso não busque ajuda.

  • Hiperssexualização

Há relatos de mulheres que, ao invés de ficarem traumatizadas com o ato sexual e fugirem dele, começam a transar compulsivamente. Porém, isso não indica uma superação.

“Sexo é uma arma de poder na nossa sociedade. Nesse caso você troca de lado para manipular, não ser manipulada”, explicou Cláudia. E pior ainda, na maioria das vezes a mulher não está tendo prazer nesse tipo de relação.

O tratamento

“Vai precisar passar pelo inferno de novo. Você vai para um lugar que não quer ir, mas dessa vez estará acompanhada”. Cláudia Renzi.

O principal tratamento da vítima de agressão é psicoterapia. Com ela, a paciente poderá ressignificar a agressão, dando um outro sentido àquela experiência, mesmo que o processo seja doloroso.

Segundo Margarete Castilho, psicóloga com especialização em Neuropsicologia, o tratamento vai permitir que a pessoa coloque para fora suas emoções e fale sobre o assunto.

Todas são bem-vindas, raiva, ódio, desprezo, nojo, dor, tristeza e medo. Segundo a especialista, são sentimentos comuns e aceitá-los, dar um novo significado, faz parte do processo. 

A partir do momento que a mulher consegue se curar das dores emocionais, ela poderá ter o recomeço saudável da sua vida sexual.

E existem vários métodos que podem ser usados nesse processo, como a própria masturbação. “Prefiro o termo auto toque consciente, para não ficar aquela ideia de toque frenético no clítoris”, brincou Claudia Renzi.

Segundo ela, descobrir o corpo mostra para a mulher que ela pode se permitir ter um orgasmo bom de verdade, que o toque não dói e que seu corpo continua sendo seu.

A recomendação é que a mulher comece em outras partes do corpo, usando cremes nas pernas e braços. Depois poderá chegar na vulva, clitóris e canal vaginal, mas tudo no seu tempo, respeitando os limites, receios e medos.

Outro cuidado que a mulher deve ter é com estímulos como contos e livros eróticos (nada de pornô, em qualquer situação). Existem relatos de mulheres que gostaram de ler, que descobriram um novo sexo dessa forma. Ajudou no processo de ressignificação, mas eles podem disparar gatilhos que remetem ao estupro, dependendo da temática do texto.

A segunda primeira vez

Não há uma regra para como será a primeira experiência sexual de uma mulher depois da agressão. 

Para Margarete Castilho, é importante ser honesta e compartilhar a história da agressão com o novo par, seja homem ou mulher. Dessa forma, seu crush ficará mais ciente da importância daquele momento para você.

O respeito e a paciência devem estar presentes durante o sexo em qualquer situação, mas com a vítima de agressão o cuidado deve ser ainda maior.

Mas, como saber que está pronta?

“Seu corpo e seu desejo lhe dirá. Não precisa ter pressa, nem se cobrar demais para que isto aconteça sem que esteja certa disso. O relaxamento e a meditação ajudam muito a redescobrir sua autoconfiança”, explica Margarete.

Primeiros passos pós-estupro

  1. Buscar a Delegacia da Mulher: ou qualquer delegacia. A advogada Ana Paula Freitas recomenda a DDM, pois lá se espera que o tratamento seja mais humanizado com a vítima. (Rua Vieira Ravasco, nº 26, no bairro Cambuci).
    O encaminhamento para serviços sociais pode ser melhor. A 1º Delegacia da Mulher fica na Casa da Mulher Brasileira, onde ela pode dormir se não tiver lugar seguro para voltar. Para as mães, há um espaço para crianças onde elas podem brincar enquanto os procedimentos acontecem, não aumentando o trauma.
    A delegacia poderá encaminhar a mulher para um exame de corpo de delito, além de providenciar medidas protetivas.
  2. Buscar ajuda médica: depois do estupro ou agressão, a mulher deve procurar um hospital para começar o tratamento medicamentoso e exames. A pílula do dia seguinte deve ser tomada com uma janela de 12 horas para evitar gravidez. O coquetel de antirretrovirais — para prevenção do HIV  não deve ultrapassar o período de 72 horas. Esse protocolo deve ser seguido até o fim para ser efetivo, mesmo com os efeitos colaterais. Segundo o Portal Drauzio Varella, o próximo passo é uma injeção de ceftriaxona e azitromicina, antibióticos que previnem IST’s com sífilis, gonorreia, cancro mole, clamídia e tricomoníase. Se a mulher não for vacinada contra hepatite B, receberá a primeira dose, devendo lembrar de tomar as outras doses depois de seis meses.
Em São Paulo, hospital Pérola Byington é um Centro de Referência em Saúde da Mulher. Ele realiza todos os protocolos médicos acima, além do tratamento de traumatismos genitais, atendimento psicológico, atendimento social e abortamento dentro do Código Penal brasileiro.
Endereço: Avenida Brig. Luís Antônio, 683, Bela Vista, São Paulo - SP, próximo ao metrô Liberdade. Telefone: 3248-8000