Deu match

por Adelaide Anut

 

Em uma consulta de rotina em minha ginecologista comento sobre a minha recente dificuldade de chegar ao orgasmo. Por conta de alguns medicamentos que tomo nem sempre consigo alcançar o ápice durante uma transa ou até mesmo sozinha. Então ela saca da gaveta um brinquedinho bem fofo e me apresenta um estimulador clitoriano. Até então eu só conhecia de vista aqueles consolos em formato de pau e que custam bem caro. Mentira. Eu até cheguei a comprar um anos atrás, mas não tivemos aquela química e ele segue largado no fundo de uma gaveta. Por isso não me animei muito com aquele novo sex toy, porém minha médica fez algumas demonstrações em minha mão e eu acabei me rendendo à compra pela curiosidade e pela facilidade no pagamento de suaves parcelas.

Fui pra casa com meu brinquedos e apesar da curiosidade ele passou dias encaixotado em um canto. Até que uma noite, depois de um dia exaustivo, eu olhei pra ele, ele me olhou e eu o libertei da caixa, o colocando na tomada pra carregar. De brochadas já basta a vida real, quero meu brinquedo cheio de energia até o final.

Fui pro banho cheia de expectativa e me preparei para um encontro comigo mesma, usei aquele sabonete líquido das ocasiões especiais, ouvi músicas que me deixam feliz, deixei a água escorrer pelo corpo, fiz dancinhas, me alonguei. Tantos anos na costas e eu nunca havia me preparado pra mim mesma, um absurdo. Sai do box cheirosa, me amando, nem passei pelo espelho pra não correr o risco de parar para cutucar aquela espinha da testa. Peguei meu brinquedo e fomos para cama.

À princípio não nos entendemos muito bem, eu não achei uma posição confortável, eu estava um pouco constrangida. É um absurdo também a falta de intimidade que temos com a nossa própria buceta. Até falar buceta é difícil, já reparou? E aí eu fui tentando, meio atrapalhada até que deu match.

Meu perfume no ar, minha cama confortável, a intensidade do toque que eu escolhi, no ritmo que eu gosto, com a pessoa que eu mais gosto (ou pelo menos devia ser assim).

Fiquei ali um tempo me estimulando, sentindo minha buceta ficar molhada, fui acariciando meus seios, percebendo o que me dava mais tesão e o que me fazia perder o foco. Óbvio que às vezes pensei na louça que estava na pia ou naquela conta que eu tinha que pagar até meia noite e esqueci. Também sempre tem o pensamento de que não vou conseguir gozar, que é muito difícil, que só estou perdendo tempo. Mas é tão raro ter um date desse que eu retomei a concentração, não é sempre que dá pra fazer uma siririca com tanta pompa e amor.

Minha imaginação foi longe, casos que eu nunca tive, encontros que eu sempre quis ter, aquelas fantasias que a gente não conta nem pro travesseiro. Tudo pode ser nesse momento e tudo é permitido, não tem certo ou errado.

Eu já estava bem sensível quando resolvi arriscar e aumentar a velocidade do estimulador no máximo pra ver até onde eu era capaz de aguentar. E aí eu percebi que o gozo estava vindo e eu relaxei bem as minhas pernas, mantive só a minha mão atenta e me deixei levar. Gozei tão forte que até gemi sozinha, coração disparado, nem tinha percebido que eu estava suando e com tanta sede. Mas antes de levantar da cama pra fazer qualquer coisa eu dormi e acordei um tempo depois com meu brinquedo ainda na mão. E já que estávamos ali, nos olhamos e decidimos recomeçar tudo, só pra ver se ia acontecer de novo, só pra ver até onde eu era capaz de aguentar.

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Adelaide Anut é jornalista, gorda, professora, mãe de pets, pansexual, casada, defensora do amor livre, do corpo livre e das palavras livres.